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Atingir a unicidade na prática*

BKS Iyengar

“A disposição da inteligência no corpo
traz graça à consciência.”

A inteligência é universal. Cada indivíduo pode ter diferentes facetas de inteligência, mas no final, a inteligência não varia em nada. É o intelecto que varia. Como a inteligência não varia, temos que aprender a aplicar essa inteligência no corpo quando estamos realizando os āsana-s. Essa disposição da inteligência no corpo traz graça à consciência para que a consciência agracie o corpo físico, o corpo mental e o corpo fisiológico.

Quando a sutileza se desenvolve dentro você, então você aprende, através da ponte de inteligência e consciência, sobre como o observador (o verdadeiro observador) pode ver todo o quadro dos limites físicos, fisiológicos e mentais.

Cada professor pensa que o que ele ensina ou o que ela ensina está de acordo com as condições dos alunos. Mas vocês têm que manter em sua mente que vocês têm que alcançar um certo estado onde as dualidades de inteligência, as diferenças de inteligência desapareçam e haja apenas unidade no sentimento de todos os milhões de pessoas que praticam yoga. Não deve haver nenhuma mudança em experimentar essa essência de cada āsana enquanto você está praticando. Isso é o que eu estou tentando dar a vocês. Então, por favor, sejam humildes, por favor, sejam dedicados aos āsana-s. Vocês não precisam ser dedicados a mim. Sem dedicação não haverá desenvolvimento.

Āsana e prāṇāyāma são as duas facetas no campo do yoga. O conhecimento é adquirido por āsana (que ninguém te ensina nem pode te mostrar). Āsana-s não é exercício físico como é comumente dito. Āsana-s desenvolve inteligência em cada indivíduo para que este se torne mais poderoso em sua compreensão. E āsana ajuda a desenvolver essa qualidade que está latente em você e a traz à tona. Não há nenhuma outra maneira em aṣṭāṅga yoga ou em outros campos do yoga, seja jñāna, bhakti, karma ou como quer que se possa chamar. Essa essência não florescerá como floresce em āsana e prāṇāyāma.

“Āsana é um caminho de jñāna marga.

Você desenvolve o conhecimento de si mesmo,

de seu corpo, de sua mente e de sua própria consciência.”

Āsana é um caminho de jñāna marga. Significa que você desenvolve conhecimento, de si mesmo, de seu corpo, de sua mente, de sua própria consciência. Prāṇāyāma te ensina como através desse conhecimento de jñāna você desenvolve devoção. Jñāna marga e bhakti marga são os dois caminhos do aṣṭāṅga yoga que Patañjali manteve entre yama e niyama (ético) e dhārāṇa, dhyāna e samādhi (karma) porque o karma puro não pode vir sem jñāna e bhakti. Sem a aquisição de conhecimento, sem devoção e dedicação que vêm através de prāṇāyāma você não pode fazer a ação certa. É por isso que dhārāṇa, dhyāna e samādhi não são nada além de ações que não têm reações.

“Dhārāa, dhyāna e samādhi não são nada além de

ações que não têm reações.”

Não há frutos nessas ações. Quando você desenvolve este jñāna através de āsana-s, quando você desenvolve a devoção e a dedicação através do prāṇāyāma, sua ação é livre de motivos e é por isso que é chamada de ação pura.

Então, estes dois passos dados por Patañjali são para que você alcance a maturidade em sua sabedoria. É isso que estou tentando dar, quer isso seja possível ou não. Se não for possível, temos de aceitar as nossas fraquezas humanas, mas um esforço deve ser feito.

Você tem que entender. Sem compreensão, o sentimento não pode vir de forma alguma. Não diga “eu sinto”, você não pode sentir a menos que compreenda exatamente o que é dito e se fico registrado ou não.

Usamos estas duas palavras em sânscrito – chintana e manana. Chintana significa analisar, manana significa sintetizar o que você está analisando com ação. Essa é a beleza desses dois passos do yoga, em que análise e síntese se encontram e, quando se encontram, isso é meditação.

Assim, quando você alcança esse estado no āsana, quando a ação é refletida novamente, e quando nessa ação refletida novamente você volta a reajustar novamente a postura – isso é meditação. Então, alcançar este estado no āsana leva a isso.

Eu dou a base e, a partir desta base, quando você faz sua prática pessoal você pode introduzir estas orientações. É por isso que eu uso a palavra sutileza.

Patañjali usa apenas duas palavras no primeiro capítulo, o que é suficiente para que possamos entender ‘citta prasādanam’. Prasādana não é apenas a expansão da consciência, mas graça.

Prasāda significa que você vai para o templo, você vai para a igreja pedir as bênçãos, não é? Por quê? Para a graça do Senhor cair sobre nós! Assim, a consciência tem que agraciar aquela área, onde quer ou o que quer que você esteja praticando. No momento em que a consciência agracia, então Patañjali diz que você entra em sukshmaha, quando a sutileza de toda e cada parte de seu corpo, de toda e cada parte de sua palavra, de toda e cada parte de sua percepção, deve ser sentida. Quando esse sukshmata chega até dentro você, ele usa a palavra adhyātma prasādana. De citta prasādana – da graciosidade da consciência você tem que saltar para a graciosidade do próprio observador. No primeiro capítulo ele usou estas duas palavras – citta prasādana e ātmā prasādana.

Ele não usou a palavra ātmā prasādana imediatamente sabendo muito bem que as pessoas podem não entender como trazer o observador até este ponto. Por isso ele diz para trazer sua consciência e então a consciência funciona como uma ponte quando você alcança essa essência da sutileza. Você despertou a consciência que está adormecida. No momento em que você a despertou, não é dever da consciência, mas é dever do observador ver se a consciência é despertada em toda e cada parte do seu corpo, desse modo o observador envolve o corpo inteiro. Então o corpo se torna um instrumento para o observador penetrar ainda mais e é isso o que o āsana ensina.

Por que você faz āsana-s?

Somos feitos de cinco elementos: terra, água, fogo, ar, éter. Estes têm cinco qualidades. Estes elementos estão no corpo físico. As qualidades como som, toque, forma, sabor, cheiro e peso do corpo são as qualidades ou o átomo desses cinco elementos e isso tem que ser sentido pelos sentidos da percepção.

“Os elementos são sentidos pelos órgãos de ação;

as qualidades dos elementos, são sentidos

pelos sentidos da percepção.”

Isso significa que você já conquistou os dez elementos da natureza que são controlados pelos dez elementos do corpo humano. Então, vem a mente.

Como o primeiro princípio de prakṛti (ou a natureza) é mahat – a inteligência cósmica, essa inteligência cósmica em cada indivíduo transforma-se na consciência individual de cada um. Então, quando você está praticando āsana, essa consciência individual tem que ser transformada em consciência cósmica em todo o corpo para que a consciência cósmica externa e a consciência individual interna se tornem cósmica (a exterior e a interior) de forma que não haja diferença entre as duas. E quando isso é alcançado, todos os 24 princípios da natureza são colocados sob o seu controle para que o observador sozinho possa ver o 25º princípio e isso é o que āsana ensina. Ninguém sabe isso.

Você tem que saber como esses veículos da natureza são aprendidos pela prática de āsana-s e contidos, para que o observador os use a fim de ver como esse parquinho de cada indivíduo (o mundo inteiro é o parquinho de Deus; para cada indivíduo este corpo é um parquinho para essa alma) pode brincar de qualquer coisa em qualquer parte de seu corpo e é isso que āsana e prāṇāyāma ensinam.

Espero que vocês entendam que o princípio por trás disto é a conquista da natureza, domando a natureza aos āsana-s e prāṇāyāma, de forma que o observador sozinho se estabeleça e dite termos à natureza para que a natureza esteja sob o controle do observador. Acontecerá o contrário até você não praticar āsana e prāṇāyāma. A natureza é superior e o indivíduo é o servo da natureza. Pela prática de āsana-s e prāṇāyāma, a escala é invertida e você se torna o mestre dos tattva-s da natureza, dos elementos, dos átomos, da mente, da inteligência, da consciência. Estes são os veículos da natureza e os āsana-s ensinam você a ir além disso, de tal forma que o observador exista em toda parte como uma unidade singular. Isso significa que o observador está agraciando seu corpo, que é parte da natureza ou a própria natureza. E é isso que eu quero lhes dar.

Por exemplo, quando você pratica Tāḍāsana, compreenda a área periférica de todo o corpo nos pés (toda a área que toca o chão, exceto o arco dos pés). Quando você observa, a borda externa e a borda interna estão conectadas ao centro. Agora eu desconectei. Estou reto, mas desconectei. É aí que a humildade começa. Você tem que ser humilde. Você não pode fazer isso com o seu ego.

Quando você observa suas pernas (veja a pele), a velocidade com que você move a parte inferior da perna não está a par com a velocidade com a qual você move a parte superior da perna. Isso significa que você tem inteligência na parte superior da perna e não tem inteligência na parte inferior da perna. Então, como trazer equilíbrio no movimento de inteligência da parte inferior da perna em paridade com a inteligência da parte superior da perna? É aí que jñāna marga vem. Agora, quando movo a parte inferior da perna, não irei rápido. Eu irei devagar. Diminuo a velocidade da pele que estava se movendo rapidamente. Isso é conhecido como equilíbrio.

Eu estou de pé, mas estou inclinando. Não é o corpo físico. “Não há nenhuma ação física sem vontade mental”. Se você observar a base do pé no tapete você observará que o calcanhar é macio, mas a sola é forte. Por que é que a frente é tão forte no tapete enquanto a parte de trás não é? Então, o que eu faço? Eu faço o ego recuar nas minhas coxas. Você pode ver agora? Assim eu encontrei o meu nível.

Como a água que encontra o seu nível equilibrado, o ser humano precisa observar se estou paralelo ao chão (as coxas).

Guruji demonstra:

Quando você está de pé, veja onde a inteligência é perdida. A região da parte superior da coxa interna empurra para a frente, enquanto quando eu estou em pé, empurro para trás e então, eu fico em pé sabendo muito bem que isso vai para dentro rapidamente.

Portanto, você tem que pegar essas fraquezas que aparecem. O que é forte, o que é fraco? Por que trabalhamos apenas a partir do ponto forte? Isso é conhecido como análise. Por que isto é rápido, por que isto é lento? Então, isso é síntese. Nós chamamos de vicāra. Eu tenho que pensar. Se estou indo ainda mais longe, estou indo errado. Veja o meu peso; o dedo do pé está pressionando o tapete: agora, o que acontece com meu dedão do pé? Isso é conhecido como equilíbrio. Isso é conhecido como síntese.

Observe como o peso se move como um pêndulo sobre um pé. (Sinta apenas a parte de baixo do pé) a largura da sola de um pé, a largura da sola do outro pé, o comprimento da base dos dedos do pé. Da mesma forma, observe o posicionamento do calcanhar. O calcanhar interno está sem vida, mas a parte dianteira do calcanhar externo está cheia de vida. O calcanhar interno está completamente apagado, sem vida. Então, o que você tem que fazer? Vire a pele para a borda. Role a pele para a borda interna. E agora, o que acontece? Pode ver, que você se torna silencioso e vai para dentro? E isso é meditação.

Pode entender? Em uma única frase eu lhe ensinei toda a filosofia.

“A inteligência se move profundo para o interior assim que você abre o corpo físico”.

Abra a parte interna da base dos dedos dos pés. Observe como a inteligência se move na parte embaixo dos pés. Observe a sola, observe o calcanhar, observe a inteligência periférica externa, a inteligência periférica interna. Como elas fluem? Você pode ver a superfície de um rio que flui. Você tem que ver a superfície intelectual no fundo da pele e se houver qualquer sensação de pele tocando significa que a inteligência está bloqueada ali. Então, você tem que levantar, tem que estender e permitir que a inteligência flua.

Observe a rotação da pele no topo da perna, na parte inferior da perna. A parte interior da borda intelectual (perna interna desde o tornozelo até a virilha). A parte externa da borda intelectual (perna externa desde o tornozelo até o quadril).

Prāṇa é força – potência. Prajñā é inteligência. Nós usamos as palavras prajñā e prāṇa. Onde há potência, há inteligência; onde há inteligência, há potência. Por exemplo (um dos estudantes demonstrou) a potência está na grande base do dedão do pé direito. Como a potência é forte, a inteligência é forte lá e o resto é esquecido. Você não está fazendo yoga. Então, falhamos em nossas práticas de yoga já que no próprio alicerce começou se errado. Use a potência na base do dedão do pé esquerdo. (Eu vou dizer potência, não inteligência). Agora, o que acontece com a inteligência? É muito melhor. Agora você tem que discriminar onde você tem que usar a inteligência e onde você tem que usar a potência. Agora, como já há potência na base do dedão do pé, direi para não usar a potência ali, use-a no outro pé para que a inteligência mude ali. Isso é conhecido como equilíbrio. A potência era muito forte, muito poderosa, assim não permitia a inteligência se deslocasse para aquele pé. Então use a potência na base do dedão do outro pé para que a inteligência venha do topo para dentro e se mova para o lado. Isto é conhecido como meditação.

Agora olhe para a parte frontal das coxas, elas estão paralelas? Olhe para os metatarsos. Um está quase enterrado e outro está para cima. O que está para cima – mande ele para baixo e olhe o que aconteceu com essa coxa. É por isso que toda postura dá errado, porque não sabemos como trabalhar o tornozelo-metatarsos. Então você tem que usar a potência para bater para baixo onde está levantado. Ela tem que cavar essa inteligência para baixo no chão. O músculo da coxa tornou-se paralelo. Veja como você tem que usar sua inteligência quando você está trabalhando. Você não tem que dizer simplesmente abaixa, não vai funcionar. Você tem que dizer exatamente ‘empurre a potência para alcançar o chão’, quando pode ver que alcança o chão aí a coxa vai para trás. Portanto, observe dessa maneira.

“A consciência tem que agraciar toda

e cada parte quando você pratica.”

Você pode ver que a consciência não está agraciando a parte posterior do joelho. Graça é bênção. A consciência não está abençoando essa área. Você pode mover a consciência para sentir onde a pele está, da parte superior de trás do joelho para a parte inferior de trás do joelho? Permita a consciência preencher ao máximo a pele. Não pare. Quando você tem que mover as partes, você também tem que mover o todo. O peso veio sobre o estômago, agora empurre esse estômago para trás e veja o que acontece? Então, isso é conhecido como equilíbrio. Pela frente, o abdômen e o púbis devem estar nivelados.

Um ligamento do joelho é longo, um ligamento do joelho é curto (o ligamento interno do joelho). Vire o canto externo do joelho, particularmente o canto superior, role para dentro ao máximo e, em seguida, mantenha-o em contato com a estrutura interna da perna. Observe agora a base dos dedos dos pés. Qual é potente, qual não é? Agora desloque a potência para a outra perna para que a inteligência possa ver.

Não se pode usar a inteligência a menos que se use a potência. Aprenda a combinação de quando usar a potência para que a inteligência se mova, quando usar a inteligência para que a potência se instale.

O Upanishad Yóguico afirma que o homem que dominou āsana dominou tudo. Se você pode fazer isso, você é o mestre dos três mundos de acordo com os Upanishads. E posso citar até mesmo do Upanishad que nem um santo nem um iogue podem se tornar um santo ou um iogue sem aṣṭāṅga yoga, sem a prática dos oito aspectos do yoga.

Que olho está vendo, que olho não está? Para o olho que é potente, há muita energia nessa perna, ao que é fraco, toda a consciência também está dormente desse lado. Você tem que carregar a potência nesse olho também para que a inteligência se mova, escoe no corpo interior.

Ambos os olhos têm que observar o interior do corpo ao mesmo tempo. Ao alongar, veja como a inteligência flui profundamente a partir da periferia. E você tem que captar esse movimento da inteligência. Captar como ela flui sem interrupções, onde estanca na outra perna, onde estanca na coluna vertebral, onde estanca no cérebro. Se não há interrupção, então isso é puro yoga. Se há interrupção, é uma prática impura.

Observe os músculos da coxa das pernas, isto lhe diz qual perna é larga, qual perna é estreita. Os músculos da coxa vão lhe guiar. É por isso que eu disse que seus olhos irão guiá-lo. Mova-se junto com sua inteligência nas costas. Você não pode virar os olhos. “O corpo de trás é o corpo mental, então você tem que ver o corpo mental apenas com o poder mental”.

Preste atenção aos seus olhos. Seus olhos devem estar olhando à parte de trás do corpo. Essa é a sua moldura. O corpo mental está na parte de trás. Os olhos são os espelhos, então você tem que trabalhar usando o espelho, os olhos, para ver como a mente está trabalhando na parte de trás do seu corpo.

No momento em que você faz a ação, a inteligência tem que reagir. Eu estou aqui. Eu não estou aqui. Eu estou aqui. Eu não estou aqui. No momento em que diz que não estou aqui, então seu trabalho é agir e novamente refletir se chegou ou não. Circularizando, não alongando. Como as células são circulares, continue a circular de dentro para fora, do corpo interno para o corpo externo (perna) e do joelho externo para o joelho interno para que você esteja exatamente no centro.

Agora fique à vontade, a inteligência fluirá. Por favor, pegue-a. Onde ela recua. Onde ela não recua, onde ela se mantém, onde não se mantém. Onde ela se mantém – está madura. Onde não se mantém, ainda é fluida, então você tem que desenvolver essa parte.

É assim que você tem que trabalhar em cada um dos āsanas!

Yoga Rahasya Vol. 16, nº2, 2009, p. 20-28.

Tradução: Monica Fontana

Revisão: Fernando R. Sanchez Lynn

Atingir a unicidade na prática*

BKS Iyengar

“A disposição da inteligência no corpo
traz graça à consciência.”

A inteligência é universal. Cada indivíduo pode ter diferentes facetas de inteligência, mas no final, a inteligência não varia em nada. É o intelecto que varia. Como a inteligência não varia, temos que aprender a aplicar essa inteligência no corpo quando estamos realizando os āsana-s. Essa disposição da inteligência no corpo traz graça à consciência para que a consciência agracie o corpo físico, o corpo mental e o corpo fisiológico.

Quando a sutileza se desenvolve dentro você, então você aprende, através da ponte de inteligência e consciência, sobre como o observador (o verdadeiro observador) pode ver todo o quadro dos limites físicos, fisiológicos e mentais.

Cada professor pensa que o que ele ensina ou o que ela ensina está de acordo com as condições dos alunos. Mas vocês têm que manter em sua mente que vocês têm que alcançar um certo estado onde as dualidades de inteligência, as diferenças de inteligência desapareçam e haja apenas unidade no sentimento de todos os milhões de pessoas que praticam yoga. Não deve haver nenhuma mudança em experimentar essa essência de cada āsana enquanto você está praticando. Isso é o que eu estou tentando dar a vocês. Então, por favor, sejam humildes, por favor, sejam dedicados aos āsana-s. Vocês não precisam ser dedicados a mim. Sem dedicação não haverá desenvolvimento.

Āsana e prāṇāyāma são as duas facetas no campo do yoga. O conhecimento é adquirido por āsana (que ninguém te ensina nem pode te mostrar). Āsana-s não é exercício físico como é comumente dito. Āsana-s desenvolve inteligência em cada indivíduo para que este se torne mais poderoso em sua compreensão. E āsana ajuda a desenvolver essa qualidade que está latente em você e a traz à tona. Não há nenhuma outra maneira em aṣṭāṅga yoga ou em outros campos do yoga, seja jñāna, bhakti, karma ou como quer que se possa chamar. Essa essência não florescerá como floresce em āsana e prāṇāyāma.

“Āsana é um caminho de jñāna marga.

Você desenvolve o conhecimento de si mesmo,

de seu corpo, de sua mente e de sua própria consciência.”

Āsana é um caminho de jñāna marga. Significa que você desenvolve conhecimento, de si mesmo, de seu corpo, de sua mente, de sua própria consciência. Prāṇāyāma te ensina como através desse conhecimento de jñāna você desenvolve devoção. Jñāna marga e bhakti marga são os dois caminhos do aṣṭāṅga yoga que Patañjali manteve entre yama e niyama (ético) e dhārāṇa, dhyāna e samādhi (karma) porque o karma puro não pode vir sem jñāna e bhakti. Sem a aquisição de conhecimento, sem devoção e dedicação que vêm através de prāṇāyāma você não pode fazer a ação certa. É por isso que dhārāṇa, dhyāna e samādhi não são nada além de ações que não têm reações.

“Dhārāa, dhyāna e samādhi não são nada além de

ações que não têm reações.”

Não há frutos nessas ações. Quando você desenvolve este jñāna através de āsana-s, quando você desenvolve a devoção e a dedicação através do prāṇāyāma, sua ação é livre de motivos e é por isso que é chamada de ação pura.

Então, estes dois passos dados por Patañjali são para que você alcance a maturidade em sua sabedoria. É isso que estou tentando dar, quer isso seja possível ou não. Se não for possível, temos de aceitar as nossas fraquezas humanas, mas um esforço deve ser feito.

Você tem que entender. Sem compreensão, o sentimento não pode vir de forma alguma. Não diga “eu sinto”, você não pode sentir a menos que compreenda exatamente o que é dito e se fico registrado ou não.

Usamos estas duas palavras em sânscrito – chintana e manana. Chintana significa analisar, manana significa sintetizar o que você está analisando com ação. Essa é a beleza desses dois passos do yoga, em que análise e síntese se encontram e, quando se encontram, isso é meditação.

Assim, quando você alcança esse estado no āsana, quando a ação é refletida novamente, e quando nessa ação refletida novamente você volta a reajustar novamente a postura – isso é meditação. Então, alcançar este estado no āsana leva a isso.

Eu dou a base e, a partir desta base, quando você faz sua prática pessoal você pode introduzir estas orientações. É por isso que eu uso a palavra sutileza.

Patañjali usa apenas duas palavras no primeiro capítulo, o que é suficiente para que possamos entender ‘citta prasādanam’. Prasādana não é apenas a expansão da consciência, mas graça.

Prasāda significa que você vai para o templo, você vai para a igreja pedir as bênçãos, não é? Por quê? Para a graça do Senhor cair sobre nós! Assim, a consciência tem que agraciar aquela área, onde quer ou o que quer que você esteja praticando. No momento em que a consciência agracia, então Patañjali diz que você entra em sukshmaha, quando a sutileza de toda e cada parte de seu corpo, de toda e cada parte de sua palavra, de toda e cada parte de sua percepção, deve ser sentida. Quando esse sukshmata chega até dentro você, ele usa a palavra adhyātma prasādana. De citta prasādana – da graciosidade da consciência você tem que saltar para a graciosidade do próprio observador. No primeiro capítulo ele usou estas duas palavras – citta prasādana e ātmā prasādana.

Ele não usou a palavra ātmā prasādana imediatamente sabendo muito bem que as pessoas podem não entender como trazer o observador até este ponto. Por isso ele diz para trazer sua consciência e então a consciência funciona como uma ponte quando você alcança essa essência da sutileza. Você despertou a consciência que está adormecida. No momento em que você a despertou, não é dever da consciência, mas é dever do observador ver se a consciência é despertada em toda e cada parte do seu corpo, desse modo o observador envolve o corpo inteiro. Então o corpo se torna um instrumento para o observador penetrar ainda mais e é isso o que o āsana ensina.

Por que você faz āsana-s?

Somos feitos de cinco elementos: terra, água, fogo, ar, éter. Estes têm cinco qualidades. Estes elementos estão no corpo físico. As qualidades como som, toque, forma, sabor, cheiro e peso do corpo são as qualidades ou o átomo desses cinco elementos e isso tem que ser sentido pelos sentidos da percepção.

“Os elementos são sentidos pelos órgãos de ação;

as qualidades dos elementos, são sentidos

pelos sentidos da percepção.”

Isso significa que você já conquistou os dez elementos da natureza que são controlados pelos dez elementos do corpo humano. Então, vem a mente.

Como o primeiro princípio de prakṛti (ou a natureza) é mahat – a inteligência cósmica, essa inteligência cósmica em cada indivíduo transforma-se na consciência individual de cada um. Então, quando você está praticando āsana, essa consciência individual tem que ser transformada em consciência cósmica em todo o corpo para que a consciência cósmica externa e a consciência individual interna se tornem cósmica (a exterior e a interior) de forma que não haja diferença entre as duas. E quando isso é alcançado, todos os 24 princípios da natureza são colocados sob o seu controle para que o observador sozinho possa ver o 25º princípio e isso é o que āsana ensina. Ninguém sabe isso.

Você tem que saber como esses veículos da natureza são aprendidos pela prática de āsana-s e contidos, para que o observador os use a fim de ver como esse parquinho de cada indivíduo (o mundo inteiro é o parquinho de Deus; para cada indivíduo este corpo é um parquinho para essa alma) pode brincar de qualquer coisa em qualquer parte de seu corpo e é isso que āsana e prāṇāyāma ensinam.

Espero que vocês entendam que o princípio por trás disto é a conquista da natureza, domando a natureza aos āsana-s e prāṇāyāma, de forma que o observador sozinho se estabeleça e dite termos à natureza para que a natureza esteja sob o controle do observador. Acontecerá o contrário até você não praticar āsana e prāṇāyāma. A natureza é superior e o indivíduo é o servo da natureza. Pela prática de āsana-s e prāṇāyāma, a escala é invertida e você se torna o mestre dos tattva-s da natureza, dos elementos, dos átomos, da mente, da inteligência, da consciência. Estes são os veículos da natureza e os āsana-s ensinam você a ir além disso, de tal forma que o observador exista em toda parte como uma unidade singular. Isso significa que o observador está agraciando seu corpo, que é parte da natureza ou a própria natureza. E é isso que eu quero lhes dar.

Por exemplo, quando você pratica Tāḍāsana, compreenda a área periférica de todo o corpo nos pés (toda a área que toca o chão, exceto o arco dos pés). Quando você observa, a borda externa e a borda interna estão conectadas ao centro. Agora eu desconectei. Estou reto, mas desconectei. É aí que a humildade começa. Você tem que ser humilde. Você não pode fazer isso com o seu ego.

Quando você observa suas pernas (veja a pele), a velocidade com que você move a parte inferior da perna não está a par com a velocidade com a qual você move a parte superior da perna. Isso significa que você tem inteligência na parte superior da perna e não tem inteligência na parte inferior da perna. Então, como trazer equilíbrio no movimento de inteligência da parte inferior da perna em paridade com a inteligência da parte superior da perna? É aí que jñāna marga vem. Agora, quando movo a parte inferior da perna, não irei rápido. Eu irei devagar. Diminuo a velocidade da pele que estava se movendo rapidamente. Isso é conhecido como equilíbrio.

Eu estou de pé, mas estou inclinando. Não é o corpo físico. “Não há nenhuma ação física sem vontade mental”. Se você observar a base do pé no tapete você observará que o calcanhar é macio, mas a sola é forte. Por que é que a frente é tão forte no tapete enquanto a parte de trás não é? Então, o que eu faço? Eu faço o ego recuar nas minhas coxas. Você pode ver agora? Assim eu encontrei o meu nível.

Como a água que encontra o seu nível equilibrado, o ser humano precisa observar se estou paralelo ao chão (as coxas).

Guruji demonstra:

Quando você está de pé, veja onde a inteligência é perdida. A região da parte superior da coxa interna empurra para a frente, enquanto quando eu estou em pé, empurro para trás e então, eu fico em pé sabendo muito bem que isso vai para dentro rapidamente.

Portanto, você tem que pegar essas fraquezas que aparecem. O que é forte, o que é fraco? Por que trabalhamos apenas a partir do ponto forte? Isso é conhecido como análise. Por que isto é rápido, por que isto é lento? Então, isso é síntese. Nós chamamos de vicāra. Eu tenho que pensar. Se estou indo ainda mais longe, estou indo errado. Veja o meu peso; o dedo do pé está pressionando o tapete: agora, o que acontece com meu dedão do pé? Isso é conhecido como equilíbrio. Isso é conhecido como síntese.

Observe como o peso se move como um pêndulo sobre um pé. (Sinta apenas a parte de baixo do pé) a largura da sola de um pé, a largura da sola do outro pé, o comprimento da base dos dedos do pé. Da mesma forma, observe o posicionamento do calcanhar. O calcanhar interno está sem vida, mas a parte dianteira do calcanhar externo está cheia de vida. O calcanhar interno está completamente apagado, sem vida. Então, o que você tem que fazer? Vire a pele para a borda. Role a pele para a borda interna. E agora, o que acontece? Pode ver, que você se torna silencioso e vai para dentro? E isso é meditação.

Pode entender? Em uma única frase eu lhe ensinei toda a filosofia.

“A inteligência se move profundo para o interior assim que você abre o corpo físico”.

Abra a parte interna da base dos dedos dos pés. Observe como a inteligência se move na parte embaixo dos pés. Observe a sola, observe o calcanhar, observe a inteligência periférica externa, a inteligência periférica interna. Como elas fluem? Você pode ver a superfície de um rio que flui. Você tem que ver a superfície intelectual no fundo da pele e se houver qualquer sensação de pele tocando significa que a inteligência está bloqueada ali. Então, você tem que levantar, tem que estender e permitir que a inteligência flua.

Observe a rotação da pele no topo da perna, na parte inferior da perna. A parte interior da borda intelectual (perna interna desde o tornozelo até a virilha). A parte externa da borda intelectual (perna externa desde o tornozelo até o quadril).

Prāṇa é força – potência. Prajñā é inteligência. Nós usamos as palavras prajñā e prāṇa. Onde há potência, há inteligência; onde há inteligência, há potência. Por exemplo (um dos estudantes demonstrou) a potência está na grande base do dedão do pé direito. Como a potência é forte, a inteligência é forte lá e o resto é esquecido. Você não está fazendo yoga. Então, falhamos em nossas práticas de yoga já que no próprio alicerce começou se errado. Use a potência na base do dedão do pé esquerdo. (Eu vou dizer potência, não inteligência). Agora, o que acontece com a inteligência? É muito melhor. Agora você tem que discriminar onde você tem que usar a inteligência e onde você tem que usar a potência. Agora, como já há potência na base do dedão do pé, direi para não usar a potência ali, use-a no outro pé para que a inteligência mude ali. Isso é conhecido como equilíbrio. A potência era muito forte, muito poderosa, assim não permitia a inteligência se deslocasse para aquele pé. Então use a potência na base do dedão do outro pé para que a inteligência venha do topo para dentro e se mova para o lado. Isto é conhecido como meditação.

Agora olhe para a parte frontal das coxas, elas estão paralelas? Olhe para os metatarsos. Um está quase enterrado e outro está para cima. O que está para cima – mande ele para baixo e olhe o que aconteceu com essa coxa. É por isso que toda postura dá errado, porque não sabemos como trabalhar o tornozelo-metatarsos. Então você tem que usar a potência para bater para baixo onde está levantado. Ela tem que cavar essa inteligência para baixo no chão. O músculo da coxa tornou-se paralelo. Veja como você tem que usar sua inteligência quando você está trabalhando. Você não tem que dizer simplesmente abaixa, não vai funcionar. Você tem que dizer exatamente ‘empurre a potência para alcançar o chão’, quando pode ver que alcança o chão aí a coxa vai para trás. Portanto, observe dessa maneira.

“A consciência tem que agraciar toda

e cada parte quando você pratica.”

Você pode ver que a consciência não está agraciando a parte posterior do joelho. Graça é bênção. A consciência não está abençoando essa área. Você pode mover a consciência para sentir onde a pele está, da parte superior de trás do joelho para a parte inferior de trás do joelho? Permita a consciência preencher ao máximo a pele. Não pare. Quando você tem que mover as partes, você também tem que mover o todo. O peso veio sobre o estômago, agora empurre esse estômago para trás e veja o que acontece? Então, isso é conhecido como equilíbrio. Pela frente, o abdômen e o púbis devem estar nivelados.

Um ligamento do joelho é longo, um ligamento do joelho é curto (o ligamento interno do joelho). Vire o canto externo do joelho, particularmente o canto superior, role para dentro ao máximo e, em seguida, mantenha-o em contato com a estrutura interna da perna. Observe agora a base dos dedos dos pés. Qual é potente, qual não é? Agora desloque a potência para a outra perna para que a inteligência possa ver.

Não se pode usar a inteligência a menos que se use a potência. Aprenda a combinação de quando usar a potência para que a inteligência se mova, quando usar a inteligência para que a potência se instale.

O Upanishad Yóguico afirma que o homem que dominou āsana dominou tudo. Se você pode fazer isso, você é o mestre dos três mundos de acordo com os Upanishads. E posso citar até mesmo do Upanishad que nem um santo nem um iogue podem se tornar um santo ou um iogue sem aṣṭāṅga yoga, sem a prática dos oito aspectos do yoga.

Que olho está vendo, que olho não está? Para o olho que é potente, há muita energia nessa perna, ao que é fraco, toda a consciência também está dormente desse lado. Você tem que carregar a potência nesse olho também para que a inteligência se mova, escoe no corpo interior.

Ambos os olhos têm que observar o interior do corpo ao mesmo tempo. Ao alongar, veja como a inteligência flui profundamente a partir da periferia. E você tem que captar esse movimento da inteligência. Captar como ela flui sem interrupções, onde estanca na outra perna, onde estanca na coluna vertebral, onde estanca no cérebro. Se não há interrupção, então isso é puro yoga. Se há interrupção, é uma prática impura.

Observe os músculos da coxa das pernas, isto lhe diz qual perna é larga, qual perna é estreita. Os músculos da coxa vão lhe guiar. É por isso que eu disse que seus olhos irão guiá-lo. Mova-se junto com sua inteligência nas costas. Você não pode virar os olhos. “O corpo de trás é o corpo mental, então você tem que ver o corpo mental apenas com o poder mental”.

Preste atenção aos seus olhos. Seus olhos devem estar olhando à parte de trás do corpo. Essa é a sua moldura. O corpo mental está na parte de trás. Os olhos são os espelhos, então você tem que trabalhar usando o espelho, os olhos, para ver como a mente está trabalhando na parte de trás do seu corpo.

No momento em que você faz a ação, a inteligência tem que reagir. Eu estou aqui. Eu não estou aqui. Eu estou aqui. Eu não estou aqui. No momento em que diz que não estou aqui, então seu trabalho é agir e novamente refletir se chegou ou não. Circularizando, não alongando. Como as células são circulares, continue a circular de dentro para fora, do corpo interno para o corpo externo (perna) e do joelho externo para o joelho interno para que você esteja exatamente no centro.

Agora fique à vontade, a inteligência fluirá. Por favor, pegue-a. Onde ela recua. Onde ela não recua, onde ela se mantém, onde não se mantém. Onde ela se mantém – está madura. Onde não se mantém, ainda é fluida, então você tem que desenvolver essa parte.

É assim que você tem que trabalhar em cada um dos āsanas!

Yoga Rahasya Vol. 16, nº2, 2009, p. 20-28.

Tradução: Monica Fontana

Revisão: Fernando R. Sanchez Lynn

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